Profundezas da sociedade

Atualizado: 24 de abr. de 2020

Por Fabíola Paes de Almeida Tarapanoff


Um soco no estômago. Do início ao fim, o filme proporciona essa sensação: uma estranheza, um mal-estar e uma dor pelos sentimentos humanos mostrados da forma mais crua possível, no limite. Somos apresentados a Goreng (Iván Massagué), que aparece em um local estranho, no 48º andar. Um senhor o observa. Inicia aí uma estranha jornada. Trimagasi (Zorion Eguileor) é um senhor que passa a responder às questões do curioso Goreng. O que é esse barulho? “Vem a comida, óbvio.” E com o tempo ele descobre que seu companheiro já está há um tempo no local e que matou uma pessoa. E que já teve de fazer o mesmo no “Poço”, para sobreviver. E por mais que gostasse de Goreng, se fosse necessário, iria comê-lo.



Goreng (Iván Massagué) e Mirahu (Alexandra Masangkay) em O poço

Fonte: Divulgação/Netflix

In: You Tube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IKoURpr85pI

Acesso em: 11 abr.2020.


Dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, O poço estreou no dia 20 de março no catálogo da Netflix e logo se tornou uma das obras mais acessadas. Aos poucos, vamos descobrindo com Goreng o funcionamento do local e que todo o dia, a certa hora, chega uma mesa repleta de comida preparada no andar zero e que vai baixando de andar em andar, sendo que em cada um há duas pessoas. Elas têm pouco tempo para se alimentar e o resto vai sendo levado para os andares abaixo e não é possível guardar comida. Se fizerem isso, a temperatura abaixa ou aumenta muito.

Vamos descobrindo também mais sobre Goreng: que entrou no Poço por escolha própria, procurando a empresa que fazia essa proposta de “experiência social”. Pois isso o ajudaria profissionalmente e no final teria um certificado, iria parar de fumar e poderia ler Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Livro que leva ao local sobre o “cavaleiro da triste figura, que lutava contra os moinhos”, revelando o quanto se identificava com o personagem, que era idealista e sonhador, ao contrário do companheiro, que prefere levar a Samurai Plus.


Com o passar dos dias, ele conhece uma mulher, Miharu (Alexandra Masangkay), que procura seu filho e por isso desce a plataforma para os demais andares, buscando encontrá-lo. Um dia ele acorda e muda de andar, para o 171 e já se encontra todo amarrado por Trimagasi. Todos os meses eles mudam de andar, podendo ir para cima ou para baixo, ao acaso, sem considerar merecimento. Como é um andar muito abaixo, a mesa chega ao seu andar praticamente vazia. Trimagasi vai ficando com fome e deseja tirar apenas um pedacinho de Goreng com sua faca especial. Ele diz que não é preciso, apenas pedir que as pessoas de cima comam menos. “Você pensa que é o que? Um Messias? Acham que as pessoas vão ouvi-lo?” E quando já está morrendo de fome, depois de semanas, Trimagasi prepara para cortar um pedaço de sua carne para se alimentar, chamando-o de “caracol”, pois foi a comida que ele disse que era sua favorita, quando foi chamado pela “Administração”. Nesse momento, surge Miharu, que já tinha ajudado anteriormente e salva sua vida, matando Trimagasi. Ela permanece um tempo ao seu lado e depois para sobreviver e não morrer de fome, ele acaba tendo de fazer o impensável: cortar pedaços de seu companheiro para se alimentar.


Ele acorda no andar 33, atordoado e sonha que está com uma mulher. Vê uma nova companheira: Imoguiri (Antonia San Juan) e seu cão, Ramsés II, referência a um dos faraós que por mais tempo governou no Antigo Egito. Descobre que seu rosto era familiar: ela era secretária da “Administração” e o entrevistou quando entrou no “poço”. Ela conta sobre o lugar e sempre separa um prato para as pessoas abaixo terem o que comer. E quando seu cão come, ela não se alimenta. Mesmo pedindo que as pessoas sejam mais solidárias e acreditando na “solidariedade espontânea”, ela não é ouvida. Imoguiri explica que a Administração sempre providenciava comida para todos os andares e que a culpa não era do sistema, mas das pessoas, que eram egoístas e não sabiam dividir. Ao discutir com Miharu, ela acaba matando seu cachorro. A ex-funcionária da administração conta que Miharu mente e quando foi admitida pela administração, disse que não tinha pai, mãe, filho e que era atriz de cinema. O objeto que escolheu foi um ukelele e não levar seu “filho”. E mesmo que se quisesse, não entraria, pois menores de 16 anos não são admitidos no local.


Goreng se vê então no andar 202. Ao olhar do lado, toma um susto: Imoguiri se matou. Ela já tinha um câncer terminal, tendo de tirar parte dos seios e se enforca, pois não queria que eles acabassem se agredindo para obter comida, pois nesse andar não sobraria nada dos anteriores. Ele acaba se alimentando da ex-companheira e ouve perturbado o “fantasma” de Trimagasi, que o persegue.


Finalmente ele acorda no melhor andar desde que chegou ao poço: no 6º. Seu companheiro chama Barahat (Emilio Buale) e é um homem de fé, que acredita que poderá sair do local. Ele traz uma corda e quer subir pela abertura. Pede ajuda do casal acima, que apenas o humilha: o homem defeca em sua cabeça. Goreng tem uma ideia de como escapar e sugere que ele ajude: que a única forma de sair, é descer com a mesa de andar em andar até o fim, pois depois a plataforma sobe rapidamente até o andar 0. Ele diz que é preciso demonstrar solidariedade, guardando a comida para os andares abaixo para quem não come faz tempo possa se alimentar.


Goreng e Barahat em O poço

Fonte: Netflix/Divulgação.In: Filmow.

Disponível no endereço eletrônico:

https://filmow.com/o-poco-t284145/

Acesso em: 11 abr.2020.


No início, relutante, ele aceita o desafio e pergunta quantos andares ele acredita ter. Goreng diz que pelos cálculos de subida e descida e permanência da mesa em que andar deve haver cerca de 250 andares. E aí os dois começam a descer cada andar e ficam em cima da mesa com armas improvisadas, protegendo os alimentos para que as pessoas de cima não comam e as debaixo, que não comiam faz tempo, tenham alimento. Eles querem inicialmente passar a mensagem de solidariedade, mas como não conseguem convencer as pessoas a deixarem comida para os andares de baixo de forma espontânea, acabam machucando e matando pessoas para cumprir seu objetivo.


Em cada andar encontram uma surpresa: pessoas agressivas e gratas por comerem depois de muito tempo. Em alguns andares, o elevador passa direto, pois só há mortos. Resolvem levar uma mensagem a todos, seguindo a mensagem do homem sábio que já foi companheiro de andar de Barahat e protegem a “panacota”, uma espécie de gelatina com frutas vermelhas que desejam levar intacta para o pessoal da Administração.


Depois de atravessar diversos andares, veem que pode existir solidariedade, mesmo no meio mais abjeto. Ao chegarem ao andar 250, mais uma surpresa: há muito mais andares. Chegando ao final, o andar 333, depois de uma briga, ele e seu companheiro estão ensanguentados e quase morrendo. Goreng vê uma criança embaixo do banco assustada. Ele pensa: “É o menino.” E não consegue entender como uma criança sobreviveu em um meio tão inóspito. Ao chegar mais perto, descobre que é uma menina e morrendo de fome. Ele não tem dúvida: deseja dar a panacota intacta para que ela coma. E os dois pensam: “Ela é a mensagem.” Satisfeita, a menina come o doce com gosto. Seu amigo morre logo depois e ele coloca a menina em cima da mesa para que ela suba até o final e se salve. Goreng não consegue subir na mesa e morre, sendo recebido pelo seu ex-companheito Trimagasi, que conversa com ele.


O final enigmático contribuiu ainda mais para alimentar as diversas teorias sobre a obra, que apresenta vários símbolos. A metáfora mais óbvia é a questão da desigualdade social que o poço representa, como uma pirâmide em que aqueles que estão no “topo” da sociedade têm acesso ao melhor, enquanto aqueles que estão na base, só se alimentam com migalhas ou nem isso. No entanto, o diretor ressalta que não é uma crítica específica ao capitalismo em si, mas ao comportamento humano, que é egoísta e só pensa em si. Há uma crítica também ao comunismo, pois quando tentam compartilhar os alimentos com todos, não conseguem, acabam matando metade das pessoas, utilizando a violência. Revela assim que o problema não é do sistema, mas da crueldade intrínseca ao ser humano. Ou como diria Thomas Hobbes em O Leviatã: “o homem é o lobo do homem”. Mesmo um homem que se considera bom e generoso, como Goreng, em uma hora de aperto, acaba se alimentando de Trimagasi para sobreviver.


Outra referência importante é ao romance Dom Quixote. Goreng não só se parece fisicamente com ele, mas como o personagem luta contra o “sistema” e contra “moinhos” para realizar seu sonho de mudar a realidade. Há ainda referências religiosas fortes: a questão de haver um “Messias”, como Goreng é chamado às vezes, um homem especial que consegue desmantelar o sistema levando a mensagem, com o apoio de seu amigo. A referência de comer seu amigo, também é um símbolo de que ele sempre vai acompanhá-lo.


O andar 33 é uma clara referência à idade de Cristo e nesse andar Imoguiri diz sobre a necessidade da “solidariedade espontânea” e quando morre, ela aparece como um “fantasma” para Goreng, dizendo que ele se “alimente de sua carne e sangue”, referência à fala de Jesus na Bíblia.


O andar 333, o último, tem o significado especial na numerologia, pois a soma de cada número separadamente dá 9, que representa o mistério e a evolução pessoal. Também se considerarmos que há duas pessoas por andar, existiriam 666 pessoas, número do demônio, referência que o local em que estariam seria o “inferno”. A “Administração” o céu e o gerente seria “Deus”. A criança que aparece ao final seria a pureza, a inocência e ela ser uma menina e não um menino, mostra ainda o quanto há de uma tradição do patriarcado na sociedade, que nega o feminino, mesmo nas origens da sociedade. Somente com a união de dois homens (um branco e um negro), que mesmo de origens diferentes, pensam da mesma forma e querem desmantelar o sistema, é que tudo pode mudar.


Outras questões importantes são: Goreng morreu? A menina existe? “Para mim, aquele último nível nem existe. Goreng está morto antes de chegar lá e aquilo é apenas uma interpretação do que ele sentiu que deveria fazer,” disse o diretor em entrevista ao Digital Spy[1]. Outra possibilidade seria a de que, mesmo salvando a menina, Goreng viveu tanto tempo na prisão, que foi corrompido pelo sistema, o que impossibilitaria o seu retorno junto da menina, que representa a esperança.


Outra opção, é a de que o protagonista estaria delirando após enfrentar a morte ao descer e que Trimagasi seria apenas “fruto de sua imaginação” e após salvar a criança, seu destino seria ficar no último nível até que o seu mês derradeiro confinado terminasse. Outra interpretação é que a menina não existe, ainda mais alimentada e limpa, pois menores de 16 anos são proibidos de entrar no local. Ela seria uma ilusão, fonte do delírio do personagem que sofre antes de morrer. Pode ser também a representação da esperança e o fato dela comer a panacota seria a metáfora da esperança consumindo o símbolo que derrubaria o status quo.


No final, o que chega à superfície é a sobremesa que ninguém comeu, ou seja, a “mensagem” foi entregue. É interessante notar que o doce aparece no meio do filme, quando aparece o chefe de cozinha confrontando os funcionários por ter encontrado um fio de cabelo na panacota. Aquela cena do meio poderia então ser o final, indicando que o doce chegou e não foi comido pelos prisioneiros por ter cabelo.


Ou seja: você pode até se dedicar de corpo e alma a um objetivo, mas quem está acima só vai ver o que quiser. A descida pelo poço, também é uma metáfora de como há camadas dentro de cada ser humano e que para entender melhor a respeito de nós mesmos, não devemos ter medo de mergulhar nas profundezas da alma. Afinal, há apenas três tipos de pessoas: aquelas que vivem acima, as que vivem abaixo e as que caem. Que pessoa você é?

Trailer – O poço – In: YouTube - Abaixo do radar - Disponível no endereço eletrônico: https://www.youtube.com/watch?v=IKoURpr85pI. Acesso em: 10 abr.2020.



O poço (El hoyo, ESP, 2019)

Ficha técnica

Direção: Galder Gaztelu-Urrutia

Estreia mundial: 6 de setembro de 2019 (cinemas)

Estreia na Netflix: 20 de março de 2020

Elenco: Iván Massagué, Zorion Eguileor, Alexandra Masangkay, Antonia San Juan e Emilio Buale, Miriam Martín, Eric Goode, Óscar Oliver, Algis Arlauskas, Mario Pardo e Txubio Fernández de Jáureg.

Indicações: Prêmio Goya de Melhor Diretor Revelação

Roteiro: David Desola e Pedro Rivero

Prêmios: Prêmio Goya de Melhores Efeitos Especiais, Gaudí Award for Best

Visual Effects.

[1] Fonte: SANDWELL, Ian. “The platform ending explained.” In: Digital Spy. 20 mar.2020. Disponível no endereço eletrônico: https://www.digitalspy.com/movies/a31807191/the-platform-ending-explained-netflix. Acesso em: 10 abr.2020.


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