Ousada sedução

Por Fabíola Paes de Almeida Tarapanoff


De forma quase hipnótica, seus olhos prestam atenção em bolsos, carteiras, bolsas, notas que o seduzem. Inteligente, Michel (Martin LaSalle) poderia ter um emprego normal ou fazer uma faculdade, mas ele prefere se dedicar a outra atividade: ser um “batedor de carteiras”, punguista (como se dizia antigamente) ou pickpocket (título original do filme).

A obra de Robert Bresson mostra a vida de Michel que passa seus dias em busca de vítimas e novos desafios. Após perder a mãe (Dolly Scal), que estava doente, Michel se entrega a atos cada vez mais arriscados e mesmo sendo advertido no metrô por um inspetor de polícia, continua em sua atividade.


Um dia um rapaz (Henri Kassagi) percebe que ele também rouba carteiras e o persegue até o prédio em que mora. Logo se tornam amigos e ele ensina vários truques a Michel, que vai se tornando mais ousado e sofisticado, roubando inclusive em um hipódromo.

Sua única salvação é o amor de Jeanne (Marika Green). Inicialmente ele pensa que a jovem estava apaixonada por seu amigo, Jacques (Pierre Leymarie). Depois de um roubo perigoso, ele sai de Paris e volta após um ano. Retorna ao mesmo prédio e encontra Jeanne com um filho. Michel acaba contando sobre sua atividade e a jovem diz que ele deve se entregar à polícia e confessar seus crimes, pois só assim terá paz de espírito.



Martin LaSalle e Marika Green em O batedor de carteiras

Fonte: IMDB


Inspirado em Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o filme também mostra a questão de que o crime não compensa, pois o sentimento de culpa sempre segue quem o pratica. Como Raskólhnikov, protagonista de Crime e castigo, ele também se acha um homem “extraordinário” e que esse tipo pode praticar toda sorte de crimes em nome de um bem maior. E assim como o personagem de Dostoiévski, começa a ficar paranóico em relação a um inspetor de polícia (Jean Pelégri), que acredita saber tudo a respeito de seus delitos.


Autor de um artigo clássico sobre o cinema, “Notas sobre o cinematógrafo”, o diretor Robert Bresson (1901-1999) traz um estilo muito próprio e se interessa mais nesta obra no balé das mãos do que na interpretação dos autores. Ele não gostava de afetação nas interpretações, preferindo mais sobriedade, pois em sua opinião o texto literário devia ter destaque. Os atores eram “modelos” e “é a vida do filme que importa, antes da vida das personagens. Quando Balzac quer fazer viver demais seus personagens, seu romance afunda. É exatamente a mesma coisa em todas as artes.” (BRESSON apud GUIMARÃES, 2011, p.22). Por isso buscava efeitos antinaturalistas, o esfacelamento do corpo humano e gestos mecânicos. Na obra, a ação se concentra nos movimentos das mãos, em planos rápidos e fechados e no rosto de Martin LaSalle, na sua tensão antes de cada roubo. Também é mostrado em planos over the shoulder (por cima do ombro) e detalhe as cartas que escreve para Jeanne, ressaltando a importância da palavra escrita em seus filmes.


Uma das suas maiores inspirações, Dostoiévski, tem mais duas obras adaptadas para o cinema pelo diretor: Uma criatura dócil (1969), que fala de amor, mas de maneira mais austera e Quatro noites de um sonhador (1971), sobre as aventuras de um dândi que perambula por Paris e inspirado em Noites brancas. Destaque ainda para a trilha sonora com a suíte de Jean-Baptiste Lully (1632-1687) e a edição de som conduzida por Antoine Archimbaud (1902-1974), que na sequência no hipódromo, só temos os sons dos cavalos, mas ele nunca é mostrado. Ele acreditava que aquilo que era informado pelo som, não necessitava de imagem. Com narrativas apresentando elipses, grandes saltos temporais e personagens com voz pausada, Bresson criou um estilo único no cinema mundial.


YouTube - Trailer - Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ouyrKtBzH1E. Acesso em: 9 abr.2020.

(Legendas em inglês)


Ficha técnica

O batedor de carteiras (Pickpocket, FRA, 1959)

Direção: Robert Bresson

Formato de produção: 35 mm

Cor: Preto & Branco

Elenco: Martin LaSalle, Marika Green, Pierre Leymarie, Dolly Scal, Jean Pélégri, Henri Kassagi e Pierre Étaix.

Produção: Agnès Delahaie

Cinematografia: Léonce-Henri Burel

Edição: Raymond Lamy

Departamento de som: Antoine Archimbaud

Citação: GUIMARÃES, Pedro Maciel e CARLOS, Cássio Starling. DVD O batedor de carteiras. Um filme de Robert Bresson. Folha Cine Europeu. v.11. São Paulo: Folha/Editora Moderna, 2011.

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