O sertão vai virar mar e o mar virar sertão


Por Fabíola Paes de Almeida Tarapanoff


“Vou contar uma estória/Na verdade e imaginação/Abra bem os seus olhos/Pra escutar com atenção/É coisa de Deus e o Diabo/Lá nos confins do sertão.” Os versos de Glauber Rocha, escritos em parceria com Sérgio Ricardo e presentes nas músicas, ajudam a compreender o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Atemporal, a obra-prima glauberiana impressiona pela força de suas imagens e pela modernidade de seu discurso, em um Brasil que passaria por um duro golpe da ditadura militar em 1964.

Injustiçado mais uma vez, o vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) mata seu patrão que o oprime e foge pelo sertão com sua mulher Rosa (Yoná Magalhães) em busca de melhores perspectivas de vida. Em sua trajetória ele se depara com o líder messiânico Sebastião, o “Deus Negro” (Lidio Silva) e passa a segui-lo, pois ele anuncia a terra prometida e o fim da opressão causada pelos proprietários latifundiários. No entanto, o discurso de Sebastião causa a ira do governo e da igreja local, que solicita a Antônio das Mortes (Maurício do Valle), conhecido como “Matador de Cangaceiros”, que mate Sebastião e seus seguidores.


Créditos: Copacabana Filmes (Divulgação)

Únicos sobreviventes da chacina promovida por Antônio das Mortes ao lado do violeiro cego Júlio, Manuel e Rosa partem novamente sem destino, em busca de uma vida mulher. Encontram pelo caminho Corisco, o “Diabo Louro” (Othon Bastos) e sua mulher Dadá (Sonia dos Humildes), que também vivenciaram uma tragédia e viram Lampião, Maria Bonita e seu bando serem dizimados pela volante, pelos “macacos”, policiais do governo, que não gostavam da justiça praticada pelos cangaceiros, à la “Robin Hood”, tirando dinheiro dos ricos para dar aos pobres. Sem perspectivas, Manuel passa a seguir Corisco e é batizado com um novo nome. Mas eles não terão sossego, pois Antônio das Mortes tem mais um serviço a realizar: matar o cangaceiro Corisco. Considerado um dos filmes mais importantes do cinema nacional e o marco introdutório do chamado “Cinema Novo”, Deus e o Diabo na Terra do Sol inovou ao apresentar novos enquadramentos e ao ir na contramão da decupagem clássica, trazendo planos longos e a naturalidade típica do Neorrealismo italiano e closes e montagem presentes na estética de Eisenstein (O Encouraçado Potemkin).


O famoso beijo de Corisco (Othon Bastos) e Rosa (Yoná Magalhães) em um travelling circular de tirar o fôlego em Deus e o diabo na terra do sol

Fonte: VSBonvenuto Trilhas - YouTube


Apresenta ainda belas canções, escritas pelo próprio Glauber com Sérgio Ricardo e que pontuam toda obra e trazem toda a riqueza da chamada “literatura de cordel”, literatura típica do povo nordestino. Nunca antes o sertão e o povo tinham sido retratados com tanta beleza e força. Força que se revela na cena em que Corisco e Rosa se entregam a uma atração irresistível e se encontram em um longo beijo acompanhado pelas Bachianas do maestro Heitor Villa-Lobos. Aclamado por cineastas como Pier Paolo Pasolini e Martin Scorsese, o filme foi eleito pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, como um dos “dez maiores filmes de todos os tempos” e foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Nessa ópera monumental guiada por Glauber Rocha, que mostra que a “terra não é de Deus, nem do Diabo, mas do homem”, pode-se gostar ou não compreender tanta eloquência. Mas nunca ficar indiferente diante da explosão de imagens - e do “sertão virando mar e do mar virando sertão” - que mudou os rumos do cinema brasileiro.

Deus e o diabo na terra do sol (Brasil, 1964) - Direção: Glauber Rocha

Ficha técnica:

Preto e branco

Duração: 125 minutos

Música: Sérgio Ricardo

Fotografia: Waldemar Lima

Cenografia e figurinos: Paulo Gil Soares

Letreiros: Lygia Pape

Montagem: Rafael Justo Valverde

Roteiro: Glauber Rocha e Walter Lima Júnior

Produtor associado: Jarbas Barbosa

Produção: Luís Augusto Mendes

Lançado em DVD remasterizado: Versátil Home Vídeo Com comentários de Ismail Xavier e Ivana Bentes

Extras: Entrevistas com o elenco e personalidades; trailer de cinema; reportagens e críticas de época; “Sertão de Glauber”; roteiro; galeria de fotos; publicidade da época; cartaz; trilha sonora; textos, “A Restauração”; biografias e filmografias; fichas técnicas e bibliografia completa.


Você confere esse clássico completo aqui:



Fonte: Clássicos da Sétima Arte - YouTube

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