Literatura em sussurros

Por Fabíola Paes de Almeida Tarapanoff


Estranheza. Isso é o que sentimos ao ver essa delicada e poética obra de Aleksandr Sokurov: Páginas ocultas (Whispering pages, cuja tradução mais correta seria “Páginas sussurrantes”). Inspirada na “prosa russa do século 19”, sua influência mais evidente, no entanto, é o romance Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski. Em um cenário sombrio e envolto em névoa, que lembra a São Petersburgo do século 19, a câmera move lentamente mostrando cada um dos detalhes dos prédios e sua textura, lembrando as obras de Andrei Tarkovsky. Ao fundo, pode-se ouvir vozes, o barulho da água e notas de Kindertotenlieder (Songs on the death of children), do compositor Gustav Mahler.

Os prédios soturnos e labirínticos lembram uma pintura de Piranesi.

Fonte: Fandor

Disponível no endereço eletrônico: https://www.fandor.com/filmmakers/director-alexander-sokurov-653. Acesso em: 10 abr.2020.


A atmosfera é tão importante quanto os personagens e apenas três são mostrados em detalhes: Raskólhnikov (Aleksandr Cherednik como o "Herói"), seu inquisidor, o Inspetor Porfiri (Sergei Barkovsky, como o "Oficial") e sua redentora Sonya (Elizaveta Koroljova como a “Garota”). A trama é sugerida, sem mais detalhes. Raskólhnikov vaga pelas ruas e vê sujeira, mulheres gritando e brigando e depois pessoas aparentemente bêbadas que se jogam no rio.


Depois ele retorna ao seu quarto e pode-se ver o quanto se sente atormentado por algo que fez. Homens parecem levar um corpo. Subitamente aparece Sonya em seu quarto, que o procurava. Ela diz que foi ao cemitério acompanhar o velório e enterro do pai. A imagem torna-se colorida. Aparecem na sequência a irmã e a mãe, que olham Sonya com um olhar inquisidor. Ele diz que ela é filha do pobre homem que foi atropelado por cavalos. Raskólhnikov a acompanha até a saída e ele pregunta como ela a encontrou. Ela diz que estava pensando nele e ouviu sua voz. Ele lembra que deu seu endereço à sua irmã. Ela pergunta a ele e a câmera se aproxima em um close nos rostos: “Você não se lembra de mim? Certamente não”, diz melancólica.


Depois ele caminha pelas ruas sozinho, no meio da multidão, uma mulher o provoca e puxa seu casaco e depois ele esbarra em um homem e inicia uma briga. O policial só observa e ao fundo está uma imagem de um grande felino, estátua bem na entrada do comissariado de polícia. Uma mulher também o provoca. Ao entrar no comissariado, vemos inicialmente a figura do inspetor, que pede que dê seu depoimento por escrito, relatando em detalhes sobre as suas posses que tinham sido deixadas para a senhoria do imóvel como penhor para pagar seu aluguel.


Quando vai ao comissariado de polícia dar seu depoimento, pois mora no prédio cuja proprietária era a mulher assassinada, sente-se acuado pelo inspetor, que o olha de forma curiosa. Raskólhnikov acha que ele sabe de algo. Ele corre pelas escadas do prédio desesperado.


Depois ele se encontra com Sonya, que pergunta qual é o seu problema. Ele diz: “Nada. Não tenha medo.” Ele se pergunta: “por que vim atormentá-la?” E ela o questiona: “Qual é o problema?” Ele a leva até a cama e pede que se sente. Ele explica que na última vez comentou que não deveriam mais se ver e que tinha ido para lhe contar algo: que matou Lisaveta.


Assustada, ela olha chorosa sem acreditar. Sonya anda atordoada e pede que ele se ajoelhe na rua e que “reze e que beije o solo que você profanou. Deus vai te dar uma nova vida”, diz. “Você vai?”, ela diz. Raskólhnikov diz que não vai se entregar, pois ainda vão rir dele, pois não pegou nenhum dinheiro da senhora. “Vão achar que eu sou um covarde e um imbecil. Eles não entenderiam. Eu não vou”, completa. O sino toca. Ele diz que ela está magra e que parece que tem as mãos de uma pessoa morta. “Sempre fui assim”, exclama Sonya.


“Por que está de pé? Sente-se”, diz Raskólhnikov. Depois se aproxima e diz que o pai de Sonya falou a seu respeito, que ela saía de casa às 18h e só voltava às 21h, referindo-se ao fato de saber que ela se prostituía para ajudar a família numerosa. E que Ekaterina, sua madrasta, se ajoelhava em frente à sua cama. “Ela vai morrer, seria melhor se ela morresse”, completa. Depois questiona se ela sempre ganha bem e que sua irmã seguiria o mesmo caminho. “Deus não permitirá essa tragédia”, Sonya diz. Ela suspira e diz que é uma grande pecadora. “Se você é uma pecadora, o que eu sou?”, ele exclama. “Pecado e vergonha estão combinados em você com sentimentos sagrados”, complementa. “Você reza para Deus?”, questiona. “Sim, quem eu seria sem Deus? “Mas ele não faz nada por você. Você é pequena e insignificante para ele”, diz. Ele se levanta e vai embora.


No final ele resolve se entregar e fica embaixo da estátua do felino em frente ao comissariado. Sem esperança, se deita no felino, toca suas patas e depois procura alento, como se alimentasse da “justiça” que a imagem representa. O filme termina em brumas. Mais do que personagens, o filme mostra essências, vestígios de romances russos. Como se as páginas desses romances ganhassem vida e fossem personagens sussurrando e buscando redenção no meio do vazio.


Whispering pages - Filme completo disponível no endereço eletrônico: https://www.youtube.com/watch?v=3k0dVsWS638. Acesso em: 10 abr.2020.


Páginas ocultas (Whispering pages, RUS, 1994)

Ficha técnica

Direção: Aleksandr Sokurov

Cinematografia: Aleksandr Sokurov

Roteiro: Aleksandr Sokurov, Yuri Arabov

Produção: Thomas Kufus, Martin Hagemann e Vladimir Fotyev.

Elenco: Aleksandr Cherednik, Sergei Barkovsky, Elizaveta Koroljova, Galina Nikulina, Olga Onishchenko, S. Toporov, S. Shurygin, V. Maslachkov e Valeri Kozinets.


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