Extra(ordinária) punição

Atualizado: 8 de abr. de 2020

Por Fabíola Paes de Almeida Tarapanoff


Frenético, ele anda pelas ruas sem parar. Quase febril, com pensamento entrecortado. Não sabe mais se está alucinando ou vivendo o pesadelo da vida real. Desconfiados, todos olham como soubessem o que ele tinha feito. Produzida pela emissora de TV britânica BBC e pelo canal Bravo como uma minissérie em duas partes e dirigida por Julian Jarrold, a obra Crime e castigo é baseada no clássico de Fiódor Dostoiévski. Filmada em São Petersburgo, mostra locais importantes da cidade, como a Catedral de São Isaac, ressaltando a sujeira e lembrando produções britânicas inspiradas em Charles Dickens, como Grandes esperanças. E em meio às sombras que marcam as cenas, é apresentado um dos maiores anti-heróis da literatura russa e mundial: Rodion Românovitch Raskolhnikov. O personagem é interpretado por John Simm, conhecido pelo público brasileiro na série Life on Mars.


John Simm em Crime e castigo - Créditos: Foto BBC/Divulgação)


O significado de seu nome em russo é “cindido”. E dessa forma vemos o personagem tanto no romance, quanto no filme: perturbado, dividido. Estudante de direito, inteligente, ele larga a faculdade e não suporta mais a companhia de outras pessoas. Sem trabalho, se esquiva da dona do imóvel, que vive lhe exigindo o aluguel. Um dia uma ideia perversa cresce em sua mente: e se ele terminar com aquela arrogância e prepotência de Alíona Ivânovna (Jane Lowe)? Por fim, aquela ideia que era apenas uma suposição, aos poucos vai ganhando vida: ele escolhe o machado e mata sua senhoria. Mas infelizmente, sua irmã e criada, Lizaveta (Heather Tobias), presencia tudo e ele precisa matá-la também. Inicialmente ele achava que apenas “homens extraordinários poderiam fazer isso em nome de grandes objetivos” e que ela não era afinal boa pessoa, que oprimia os demais. Que ele exterminou uma "mosca" com uma bota uma “mosca”. Mosca que aparece simbolicamente em cena, se debatendo e morre.

No entanto, assim que comete o “crime”, ele passa a ter seu castigo e não tem mais descanso: sua mente fervilha com suposições de que todos à sua volta suspeitam dele. E nessa paranoia ele evita seu amigo Razumíkhin (Shaun Dingwall). e se incomoda com Porfíri, que sempre o observa de forma atenta, principalmente depois que ele desmaia no comissariado de polícia.


Com seus olhos inquisidores, Porfíri Pietróvitch (Ian McDiarmid) aparece na obra com seus jogos psicológicos que incomodam Raskólhnikov, como no momento em que ele comenta a respeito do artigo publicado na revista Periódica, dizendo achar o texto muito interessante. Raskolhnikóv responde então que há homens "ordinários" e "extraordinários", sendo que essa categoria é formada por homens que "infringem as leis, mas o fazem sempre devido a uma ideia", o que daria "direito ao crime" (DOSTOIÉVSKI, 2002, p.241-242).


Raskólnikov sai desse encontro certo de que seu segredo fora descoberto. E o filme retrata por diversos momentos seus diálogos internos, tão caros a Dostoiévski. Suas teorias se confrontam também com as leis da sociedade, a religião e sua família: o que pensariam sua mãe, Pulcheria Raskólhnikov (Geraldine James) e sua irmã, Dúnia (Kate Ashfield)? Irmã que sempre se sacrificou por ele e se casaria com um homem que não amava: Lujín (David Haig), para ajudar a família. E que ainda foi perseguida por Svidrigáilov (Nigel Terry), homem que depois descubrira que era casado e a ameaçava.


Trailer – You Tube - Disponível no em: https://www.youtube.com/watch?v=2jjGnLDC4T0. Acesso em: 5 abr.2020.


Outra personagem que o instiga é Sônia (Lara Belmont), que para ajudar a família numerosa e o pai que bebe, acaba se prostituindo. O estudante tem afeto por ela e um dos momentos mais tocantes é quando confessa seu crime e ela diz que ele deve buscar a redenção, se entregar à polícia a única forma de se redimir perante a Deus. Ele diz que não acredita. Sônia chora, abraçada à Bíblia. Nesse momento ela se santifica e Raskolhnikóv se torna um “demônio”, como ele mesmo afirma. A dualidade tão cara a Dostoiévski se faz mais uma vez presente. Apesar de tentado a não se entregar mais à polícia, Raskolhnikóv acaba cedendo à pressão não só da sociedade e pelo afeto de pessoas queridas: cede também à sua consciência, seu maior juiz, que o condena.

Crime e castigo (Crime and punishment, EUA, 2002) Ficha técnica Diretor: Julian Jarrold

Baseado no romance Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski (Em russo: Преступление и наказание, de 1866) Adaptação: Tony Marchant Produção: BBC e Bravo Fonte: Livro Crime e castigo. São Paulo: Nova Cultural, 2002.

Capa do DVD - Créditos:

BBC Log On Editora

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